Antes mesmo de chegar às prateleiras, o livro do jornalista Tomás Chiaverini causava burburinhos na cena raver nacional, por meio de seu blog oficial o
antesdaestante, e do blog que escrevia para o
Essential, onde ele distribuía doses homeopáticas de seus textos descrevendo suas aventuras no mundo eletrônico.
No dia 4 de abril, o livro
Festa Infinita – O entorpecente mundo das raves foi lançado oficialmente. Com uma linguagem agradável, as 304 páginas passam sem você perceber, dá para devorar o livro em poucos dias, já que uma história emenda na outra e assim por diante.
O livro é leitura obrigatória para ravers e curiosos de plantão, suas páginas contam a história do movimento raver, como surgiram os gêneros eletrônicos, como nasceram as drogas e muito mais. Mas a leitura não agradará a muitos, com certeza. Sem medo de ser feliz ou chocar, Tomás mostra como as drogas fazem parte desse mundo. Praticamente todas as fontes são mostradas como usuárias, e questões como liberdade e legalidade são debatidas entre as linhas e as entrelinhas do livro.
O autor não poupa detalhes, escreve em minúcias tudo que viu, sentiu e ouviu enquanto pesquisava. Em alguns momentos até parece um pouco de preciosismo demais, e até mesmo irritante, esse excesso de descrição – mas com um pouco mais de paciência dá para entender que faz parte da sua narrativa. Um ponto que Tomás gosta sempre de descrever com precisão são as formas femininas. É possível enxergar em suas falas o quanto o jovem jornalista é fã do universo feminino.
Não tem como deixar de levantar que talvez alguns fiquem incomodados com a posição em que o livro se coloca, dizendo abertamente como as raves são apenas, com raras excessões, uma festa para os jovens se desprenderem do mundo e se jogarem no mundo das drogas. Mas se as páginas forem lidas com um olhar jornalístico, a tentação de retratar tudo o que foi visto sem pudor é completamente normal. Se agarrar a alguns fatos e não a outros, é uma escolha de quem observa e escreve. Definitivamente, é complicado ser imparcial, ainda mais tratando de assuntos delicados como juventude, música e drogas.
Tomás também se prendeu a questões distantes, como o caso do grupo alemão “Fucking For Forest”, que se apresentou no Universo Paralello 9. O autor dedica inúmeras páginas ao grupo e as suas performances sexuais pela natureza. Porém, a apresentação dos alemães não é algo que está sempre presente no festival. Eles são a excessão da regra. Talvez, o romantismo tenha batido à porta de Tómas Chiaverini quando escolheu debruçar e escrever páginas e páginas sobre as pessoas que transam a favor do meio ambiente.
Por outro lado, Tómas acabou deixando de lado aspectos importantes da cultura eletrônica. Como, por exemplo, questões sociais e revolucionárias do nosso Brasil que fizeram abrir as portas do mundo psicodélico. É legal lembrar que a psicodelia no trance do Brasil é um braço da psicodelia na época da repressão. Logo, Mutantes, Tropicália, Secos e Molhados, são os pequenos grandes revolucionários da época, que deram o pontapé inicial para toda a cultura eletrônica atual.
Que o livro geraria polêmica, isso já era esperado. Que ele não seria bem aceito pela cena raver mais “xiita”, todos já sabiam. Mas Tómas é um grande escritor e um bom jornalista, daqueles que incomodam, que perguntam, que querem saber mais e mais. As palavras do jornalista Ricardo Kotscho no prefácio do livro descrevem bem a qualidade do jovem escritor. “O repórter Tomás Chiaverini já faz parte dessa tribo sem idade dos bons contadores de histórias reais”.
Sempre há o que dizer, sempre dá para opiniar sobre o trabalho alheio. Imparcial ou não, exagerado ou não,
Festa Infinita consegue registrar a cena eletrônica e os jovens dos anos 2000 - sem hipocrisia.